A ponte | João Valente

'Iam cometer um crime.' Three young teenagers are standing on the platform in Oeiras. As a rite of passage they have to cross the railway bridge to Santo Amaro.
Door João Valente op 1 jan 2019
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Literatuur
CELA

'A ponte' is a short story by the Portuguese author João Valente. Valente is part of CELA (Connecting Emerging Literary Artists), a two-year European talent development programme where young writers, translators and curators develop their skills and expand their network. Anne Lopes Michielsen, who is also part of CELA, translated the story into Dutch.

A ponte

 

Todas as estações de comboio têm um relógio. Na verdade, têm mais do que um. Em cima da bilheteira fica o principal. Depois, na gare de embarque, estão os mais pequenos. Os úteis, pois são cúmplices da nossa preguiça em tirar o telemóvel do bolso ou consultar o relógio de pulso. As crianças ficam fascinadas por estes relógios. Como o ponteiro dos segundos roda sem parar, acaba por ser o único momento em que conseguem ver o tempo a passar. Olham o ponteiro a subir e, à medida que se verticaliza, os seus coraçõezinhos batem mais depressa e os olhos esbugalham-se. Quando, por fim, o indicador dos minutos dá um salto, sabem que o mundo entrou numa nova era.

 

O cais de embarque estava quase vazio. Haveria uma dezena de pessoas aguardando a partida do comboio. Ainda não era hora de ponta, altura em que se encheria de gente a fugir de Lisboa. Procuravam escapar-se, durante umas horas, dos seus empregos e escolas e voltar à terra onde moravam. Tinham pressa para irem buscar os filhos à escola ou irem às compras, estudarem para um exame ou para se unirem a um amante. O outono tinha tomado conta do calendário e o céu de um dos lados da estação apresentava uma tonalidade violácea, de fim de dia. No lado oposto, o azul tentava resistir ao avançar da noite.

 

— Um minuto —, disse Luís, após o salto do ponteiro.

 

Ricardo ajustou os óculos. Estavam-lhe largos por causa de um parafuso desapertado nas hastes e teimavam em escorregar-lhe nariz abaixo. Olhou, invejoso, para Luís. Como podia estar tão confiante e descontraído? Iam cometer um crime. Mas isso nem era a pior parte. Desafiariam um monstro de 140 toneladas que se deslocava a 80 quilómetros por hora. Podiam morrer. Po-diam mo-rrer. Dito assim, devagarinho, a separar as sílabas, tornava-se ainda mais assustador.

 

Carolina olhou para o telemóvel. Queria confirmar que faltava, de facto, um minuto para o início.

 

— Se o continuas a ligar e a desligar, ficas sem bateria. E só vale a pena fazermos isto se conseguires filmar —, ralhou-lhe Luís.

 

— Estava só a…

 

O silvo do comboio anunciando a partida caiu em cima da frase de Carolina. Em resposta, a composição começou a mover-se.

 

— Vamos. Ou é agora ou já não é!

 

Seguiram Carolina e lançaram-se da gare para o trilho dos carris. Se alguma das pessoas que estava no cais os viu, caminhando atrás das carruagens, ignoraram-nos, sem lhes dar uma palavra, um grito ou fazer uma chamada de ajuda.

'Quando, por fim, o indicador dos minutos dá um salto, sabem que o mundo entrou numa nova era'

A aventura começou semanas antes, quando perceberam que, no ano seguinte, estariam no liceu. 

 

— E se vêm atrás de nós? —, questionou Carolina.

 

— Não vêm. Têm medo de levar com um comboio. Na pior das hipóteses, avisam os empregados da estação. Vamos ser apanhados do outro lado, mas conseguimos passar a ponte —, supôs Ricardo. E continuou: — Entre Oeiras e Santo Amaro são 700 metros. A passo, ou seja, a cinco quilómetros por hora, demoramos nove minutos a fazer o caminho. Se sairmos logo a seguir ao comboio das 17.23, ficamos com 16 minutos antes do seguinte, que sai às 17.37 de Oeiras e que chegará a Santo Amaro às 17.39. Perceberam?

 

Ricardo fez a pergunta no plural, mas olhou para Luís. Este não respondeu, apesar de o olhar o ter irritado. 23 mais 16 são 39. Era uma conta fácil. Para bem do grupo, preferiu calar-se.

Todos os alunos do liceu eram chamados a fazer o percurso entre as estações de Oeiras e Santo Amaro pelos carris. O único caminho passava por uma ponte de ferro, suspensa a trinta metros do solo. Percorrê-lo implicava poder cair no asfalto da estrada ou ser esmagado por um comboio. Mas isso assustava-os menos do que sujeitarem-se a cinco anos consecutivos de bullying. Quem não fizesse a travessia também não sobreviveria à adolescência. Pelo menos, com a auto-estima intacta.

 

Queriam ser os primeiros alunos a fazer a prova antes entrarem no liceu. E para o provar, haveriam de se filmar a fazê-lo. Era um dois-em-um. Além de conquistarem o respeito do liceu, iam pôr o vídeo nas redes sociais. À excepção do Facebook, por ser o único sítio em que os seus pais eram seus amigos. Feito o vídeo, tornar-se-iam uma lenda. E, para tal, valia a pena arriscar a vida de uma maneira tão perigosa e leviana.

 

Confiavam nos cálculos de Ricardo. Era um dos melhores alunos da turma. Bom a matemática: o único que sabia traçar a mediatriz de um segmento de recta.  

'Quem não fizesse a travessia também não sobreviveria à adolescência'

— Porra… Esqueci-me!

 

Carolina levou a mão ao bolso e tirou o telemóvel. Ligou-o e pôs a câmara a gravar. Nesse instante, passaram por uma placa que dizia «Proibida a passagem» a letras vermelhas. Aproveitaram para sorrir, enquanto simulavam um V deitado com as mãos. Prosseguiram viagem e Carolina repetiu para a câmara o discurso que tinha ensaiado, na noite anterior, em frente ao espelho.

 

Esperou que os pais adormecessem no sofá, embalados por uma série qualquer, e barricou-se na casa de banho. Repetiu o texto que tinha preparado um par de vezes até que ficou a olhar para a sua imagem reflectida. Primeiro de frente, depois de perfil. Já se notava a silhueta do peito e as calças estavam cada vez mais cheias no rabo. Por um lado, sentia-se orgulhosa da sua figura. Por outro, não gostava que, aos poucos, os rapazes a tratassem de maneira diferente. Antes era tudo mais fácil. Andavam juntos e isso bastava. Agora, parecia que competiam entre si pela sua atenção.

 

Assustou-se quando a porta da casa de banho se abriu. Temeu que os pais tivessem escutado alguma coisa. Baixou-se e fez uma festinha a Maria Antonieta, a gata que adoptara há cinco anos.

 

— Não contes a ninguém. É um segredo só nosso.

 

Tapou-se com o roupão para evitar ver as curvas do seu corpo e ensaiou outra vez o discurso com que haviam de abrir o vídeo da travessia.

A primeira centena de metros foi vencida com facilidade. Caminhavam sobre a gravilha em que assentavam os carris, mas quando chegaram ao início da ponte, pararam. Tinham medo. Foi Luís quem deu o primeiro passo sobre a estrutura metálica, obrigando-os a irem atrás dele. A passadeira, entalada entre os carris à direita e uma rede metálica à esquerda, tinha um metro de largura. Na ponte não havia gravilha. Entre as barras de ferro encontrava-se o abismo e o vento era muito mais forte do que tinham antecipado. Tinham de seguir lentamente e em fila indiana: primeiro Luís, depois Carolina, de braço erguido, segurando o telemóvel, e Ricardo no fim. Este conseguia ver o fecho do soutien insinuando-se no tecido da blusa da amiga, mas o seu olhar focou-se no risco dos tríceps de Ricardo, destapados pela T-shirt. A figura, mais alta que ele uns dez centímetros, tapava-lhe a visão da estação, lá ao fundo. Ricardo irritou-se com os seus braços tenros, com a barriga que a sua mãe adorava e pelo buço que não aparecia.

 

Foi então que a ponte começou a tremer. O vibrar quase imperceptível foi ganhando corpo e já ameaçava desconjuntar a estrutura. O estrépito metálico tomou conta de tudo. Impedia-os de ver, de falar e de pensar. Ricardo prevenira-os que às 17.30 haveriam de se cruzar com um comboio que iria no sentido contrário. Contribuiria para que o vídeo se tornasse ainda mais viral, com a imagem das composições a passarem por eles, o olhar de terror do maquinista e o ar incrédulo dos passageiros.

 

Mas não estavam preparados para o poder das 140 toneladas. Perceberam que a ponte iria colapsar. Aterrorizados, tiveram de se agarrar à rede e uns aos outros para não serem projectados.

Mantiveram-se imóveis mesmo depois de tudo ter acabado. Demoraram muito tempo a recompor-se. Foi Carolina a primeira a soltar-se. Respirou fundo e deu uma palmada amigável nas costas dos seus companheiros.

 

— É melhor continuarmos —, disse numa voz sumida, sem lhes revelar que o pânico a fizera esquecer-se de filmar a passagem do comboio.

 

— Os meus óculos!

 

De pé, de costas para a rede, viram o rosto nu de Ricardo. As mãos percorriam a cara, tentando encontrar uma coisa que já não estava lá. A ponte fizera a sua primeira vítima.

'Baixou-se e fez uma festinha a Maria Antonieta, a gata que adoptara há cinco anos. — Não contes a ninguém. É um segredo só nosso'

Queriam sair dali o mais depressa possível. Iam-se habituado à estreiteza da passadeira, ao vento que os queria derrubar e caminhavam de forma rápida e decidida.

 

— Temos seis minutos. — Ricardo encostou a cara ao ecrã do telemóvel para vencer a miopia. — É melhor despacharmo-nos.

 

Apressaram o passo. Quase corriam. A cada passada sentiam a ponte a vibrar. Mais e mais. E perceberam que não vibrava por causa deles. Reconheceram o balanço, o zumbido, a antecipação. Luís olhou para trás, para a gare que tinham deixado há poucos minutos, e viu-o. De faróis acesos. Avançando com lentidão, mas a ganhar velocidade a cada segundo.

 

— Vem aí outro comboio —, gritou.

 

Ricardo e Carolina ficaram como coelhos numa estrada, encadeados pelas luzes dos carros.

 

— É impossível —, balbuciou Ricardo.

 

Perdido, voltou a encostar os olhos ao telemóvel. Tinham passado nove minutos. Ainda dispunham de mais cinco até nova partida.

 

— Tu viste os horários? —, perguntou-lhe Luís.

 

— Vi. Tenho-os aqui. O próximo comboio só sai daqui a cinco minutos. — Agitava o telemóvel como se fosse um oráculo infalível.

 

— Então como explicas aquilo?

 

— É impossível. — Ricardo meneava a cara em negação.

 

— Foda-se! Estás a ver o comboio e dizes que é impossível? – Luís apontava para a carruagem que vinha direita a eles.

 

— Está na net —, gritou Ricardo, aproximando-se de Luís.

 

— Ah! Se está na net, aquilo deve ser a minha imaginação.

 

Carolina teve de pôr entre os dois.

 

— Calem-se já e corram!

 

Partiu na direcção de Santo Amaro. Os rapazes seguiram-na, tentando acompanhar-lhe a passada. A ponte vibrava de forma cada vez mais violenta, denunciando que o comboio também aumentara o seu ritmo. Carolina arriscou olhar para trás. Estava já perto deles, a uns cem metros. A saída da ponte encontrava-se ao dobro da distância. Parou.

 

— Não vamos conseguir.

 

— Continua a correr —, insistiram.

 

— Ele vai apanhar-nos antes de chegarmos ao fim da ponte.

 

— Agarramo-nos à vedação e deixamo-lo passar —, sugeriu Luís.

 

— Não há espaço —, respondeu-lhe Carolina, já a gritar. — Não viste quando passou o outro comboio? As carruagens quase tocam na rede. Temos de saltar para o outro lado.

'Deram as mãos para que, se um caísse, os outros conseguissem agarrá-lo'

Os carris teriam uns trinta centímetros de largura. Entre eles, um espaço de meio metro abria-se sobre o abismo. Deram as mãos para que, se um caísse, os outros conseguissem agarrá-lo. Carolina seguiu à frente, com Ricardo no meio e Luís a fechar o cortejo. O comboio estava quase junto deles e ouviram o silvo desesperado do condutor que os vira demasiado tarde, escondidos pelo entardecer que se tornara noite.

 

Nenhum dos três conseguiria depois explicar o que se passou. Estavam já agarrados aos carris da via que seguia no sentido contrário, tinham conseguido ultrapassar a parte mais difícil. Um pé em falso, um desequilíbrio, um solavanco, talvez. Sentiram as mãos a desenlaçarem-se. E quando se olharam, tudo tinha mudado. Luís percebeu o pânico na cara dos amigos, tentando agarrá-lo, mas limitando-se a apanhar punhadas de ar. Não viu o telemóvel de Carolina a despedaçar-se sobre o asfalto da estrada, dezenas de metros abaixo. Deixou-se ficar de pés suspensos no ar, agarrado a um dos carris enquanto a ponte balançava pela acção dos 1700 cavalos da locomotiva que estava prestes a passar por eles.

 

Os amigos caíram sobre ele, mas a pele suada e o desespero insistiam em fazê-los perder as mãos. A custo, lá o conseguiram puxar. Gatinharam até à passadeira do outro lado e agarraram-se à vedação no instante em que o comboio se cruzou com o trio.

 

Não guardaram recordações do resto do percurso. Arrastaram-se até ao outro lado da ponte e a memória voltou quando chegaram à gare de Santo Amaro. Nessa altura, já a circulação fora suspensa e o chefe de estação os aguardava, acompanhado da polícia. Uma pequena multidão, de mão na boca, olhava-os do alto do cais.

 

A notícia da travessia passou nos rodapés dos canais de notícias e ocupou um quarto de página num jornal do dia seguinte. O repórter de serviço optou por usar uma imagem de arquivo de um comboio em vez de lhes tirar uma fotografia, mas tinham a prova de que precisavam para entrarem no liceu de cabeça erguida.

 

Levaram-nos para a sala do chefe de estação. Deram-lhes água e preencheram um relatório preliminar do incidente. O agente da polícia mais graduado ralhou-lhes, explicando que já não eram crianças. Aquele disparate podia ter prejudicado muita gente, além de os ter posto em grande perigo.

 

Um colega informou-os que os pais tinham chegado. Deixaram-nos sozinhos na sala, enrolados em mantas. Ficaram em silêncio. Sentiram o nervoso a ceder ao riso. Tentavam que, lá fora, não percebessem, mas a as gargalhadas saiam-lhes em golfadas, incontroláveis.

 

Um dos polícias abriu a porta e olhou-os, incrédulo:

 

— E ainda se riem?

 

— Desculpe —, respondeu Carolina, tapando o sorriso com a mão. — Foi sem querer.

Emerging writer from Portugal

'You need to be able to see what’s going on around you. From an early age I’ve invented stories and I’m pleased I never lost the ability. To this day I think writing is the best thing there is.'


João Valente (1977) is a Portuguese writer, born in Lisbon. He holds a Degree in International Relations from the University of Lisbon, Portugal, and a Master of Arts in European Studies from the College of Europe in Brugges, Belgium. He has always written short stories. In 2015 he was considered one of the FNAC’s New Talents in Literature, with one of his short stories appearing in the FNAC’s popular anthology. His first novel, The Empire, was published by Topseller in 2016. It is a fictional biography of a rock band that headlined the world’s greatest festivals, mixing real life events, personalities and brands with a fictional narrative and made up characters. It was shortlisted for the Chambéry First Novel European Award and is published in Mexico by Paraíso Perdido. He regularly writes content for news and online marketing agencies. He is currently working on his second novel and on a weekly fiction podcast.

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